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quinta-feira, 22 de junho de 2017

ABAPIXUNA

                                                 












                                                      
                                                         Eu não sou daqui, marinheiro só, eu não tenho amor, marinheiro só, eu sou lá d´Angola, marinheiro só,  ou das terras d´Oió, marinheiro só. 
                                    Pegados na selva por inimigos,  vendidos a preço de banana a mercadores d´almas, cristãos ou não,  escondidos sob cristandades,  um povo, antes livre e altaneiro, se vê acorrentado e atiçado em porões de navios, homens, mulheres e crianças amontoados, sofrem fome, sede, o balanço do mar e o banzo. Subirá alguns deles, um dia,  à proa? Ou serão sempre bufões, Scaramuccias pronto a fazer gargalhar  a turba? Um palhaço de Mar Bonito assume a Corte. O imperador quer se distrair, suas concubinas também. 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

NÃO RENUNCIAREI

                           















                                                     

                              A arte de viver consiste de avanços e retrocessos. Quem não reconhece seu  erro e  não dá um passo atrás, cairá na primeiro que fizer. Para venceres qualquer inimigo muitas circunstâncias se fazem necessárias, mas a primeira é saber quando combater e quando bater em retirada, dizia o grande Sun Tzu. Quando o homem está acuado, há de ter sabedoria para ganhar a simpatia de alguns acuadores, dividindo-os até encontrar a brecha para escapar da toca. Um herói pode no dia seguinte acordar covarde, traidor. Quem não olha para trás,  estará condenado ao ostracismo, a elite te-lo-á, sempre,  como forasteiro. Foi assim com o trácio Justiniano, pobre nascido na longínqua Sérvia, tornado imperador, esposa Teodora, vinte anos menos em idade, artista de circo, desdenhando a nobreza e o senhores da terra.

                                  Quem domina não suporta a ousadia de seus servos, quem puser a cabeça fora, defenestrado será. O ostracismo é o destino. 
  


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A SECA









         



Quem não conhece o Nordeste não sabe o que é seca. Ouvir falar não está nem perto do que realmente seja conhecer sua realidade. É a mesma a coisa que ouvir falar da neve, nada se compara a vê-la caindo sobre nossa cabeça, encharcar nossos pés, esfriar nariz e orelhas.

A miséria da seca se prolonga por anos, destrói esperanças, enxota cidadãos, cria uma raça de párias que vive à mercê dos poderes públicos, como cria uma indústria da seca na qual uns poucos se aproveitam para ganhar à custa da miséria d´outros.

Seca é Morte e Vida Severina, é a baleia de Fabiano e Sinhá Vitória, é o papagaio feito comida, é o caminhão d´água esmolado do político, é gado servindo de pasto a urubus.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

NOITE DE INSÔNIA













Numa noite negra, um homem se debatia em seus pensamentos, a noite virou dia, o homem adormeceu sem ter encontrado a solução para o problema que se lhe impusera.

Sim, ele próprio inventou o problema: achar e colocar um verdadeiro representante do povo brasileiro no topo de um dos poderes da república.

Sabia das dificuldades que iria encontrar, ao contrário do que muitos pensam, a nomeação de alguém para um tão alto cargo na república não era obra de um só homem,  mas de inúmeras forças internas e até externas que exercem pressões para levar ao cargo pessoa de sua confiança. Nesta briga de foice no escuro, geralmente quem leva a melhor são as forças produtoras, os homens que detém, na realidade, o verdadeiro poder. Muitos pensam que um presidente ou primeiro ministro de um país exerce o poder, mas não é verdade, quem exerce o poder são os grupos que detém os meios de produção. De concreto, um presidente ou primeiro ministro não está no poder, está no governo, que são conceitos totalmente diferentes. O governo é exercido por alguém em nome dos que detém o poder, somente em alguns casos, as forças produtoras colocam no governo um homem de seu meio, um banqueiro, um industrial, um alto comerciante, mas em geral os políticos são pessoas da classe média a serviço da classe dominante.

Em 1954, ano da morte de Getúlio Vargas, nascia em Minas Gerais na pequena Paracatu um menino, filho de um pedreiro e de uma doméstica. Era o primeiro entre oito que fabricara o velho, que parecia saber trabalhar bem à noite, embora com mãos calejadas do bater  do martelo, do manejar a colher, do mexer em pedras e tijolos.

A cidade tem seu nome herdado do Rio Paracatu que em Tupi significa rio bom ou rio bonito, pará é rio,  catu  é bom, bonito. Nela cresceu um de nossos  personagens deste romance meio picaresco, como quase tudo em terras tupiniquins. 

Pouco tempo tinha o menino para colher a guabiroba, fruta abundante na região, pois a labuta diária na ajuda ao pai não lhe permitia horas de recreio, como aos demais meninos de sua idade. E sua luta se intensificou quando viu seu pai se separar de sua mãe, tornando-o praticamente o chefe de família, como era comum naquelas eras. O primogênito carregava o bastão na falta do pai e era até o senhor da educação dos irmãos mais novos.

No mesmo mês em que nascera em Paracatu, outro menino igualmente ou talvez mais pobre, nasce em Pernambuco, na cidade de Caetés, de pais lavradores, também sem televisão e certamente sem tostão,  o sétimo de uma prole de oito filhos. 

Como faz filho o pobre! Não era irresponsabilidade. Em outras épocas a prole numerosa podia ser a fortuna dos pais, pois todos trabalhavam e  terminavam por ajudar no orçamento doméstico. Hoje que se proibiu a criança de trabalhar é que foram aparecendo os pequenos infratores, visto que a solicitação do mundo moderno, o apelo ao consumismo enchem os olhos dos miúdos, como dizem os portugueses, e por falta de dinheiro, já que não trabalham e os país não no tem, partem para a rua e o final é o que se vê na atualidade. Os infratores juvenis. 


Ficava-se sem infância, os sonhos da juventude  perdidos, o que não deixava de ser uma violência, mas se perdia a inocência, ganhava-se em responsabilidade. Hoje a criança não brinca mais de negro fugido, roda bandeira,  roda ciranda. É pregado na televisão vendo toda espécie de violência e apelos ao consumismo, jogando-se assim o adolescente nos braços de traficantes e toda espécie de criminosos na esperança de comprar com o ganho,  além da comida para casa, a roupa de grife, o celular de ultima geração, criando-se uma verdadeira falange de jovens infratores que em sua maioria não chega aos vinte anos, pois são logo mortos pela polícia, quando não se matam a si próprios, na luta por pontos de drogas ou qualquer outra atividade não regular.