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terça-feira, 3 de julho de 2018













                                   
                                                  Vai, cão danado, neste caminho, que tu terás a recompensa, atroz será, espera apenas, descubram tua perfídia. Esqueceste o pesado malho, logo tenhas pegado uma caneta. Os teus não te esquecerão. Vai, quero ver chegares. Não irás a lugar nenhum. Não te enganes.

segunda-feira, 2 de julho de 2018














                                                           E tendo eu pegado dum quicé, acharam, eu, um moleque, iria fincar ela em carne alheia. Eu sou de paz, malungo sou de todos. Não me queiram mal. Pra cortar o fumo, um cigarrim pra pitar. Gosto de pitar. Descansar o martelo, cansado de malear. Não me acuse de mucua-quituxe, só porque não sou soba, mas simples monangamba. Não criminalize a pobreza.


sábado, 2 de junho de 2018













                                         
                                                     E os filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante o Senhor, o que não lhes ordenara.

                          Então saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu; e morreram perante o Senhor. (Levitico, 10,1,2).
                          Eu me chamo Mahommah Gardo Baquaqua nascido em Djougou no Benin. Poderias  teres vindo também de lá? Não, não tens a mesa têmpera. És demasiado conformista, eu diria, és mesmo do tipo puxa-saco. Por isto chegaste onde chegaste, pisando todos os de baixo e lambendo a botas dos de cima.





domingo, 25 de fevereiro de 2018

NAVIO NEGREIRO

     










                                                         




                  'Stamos em pleno mar, singra-o, de negros, carregado, o veleiro brigue d´Aarão Lopes, cristão novo português, agiota e mercador de gente, trocada por miçangas, em terras africanas. Donde vens?  Que destinos tomarás? Onde aportarás com tua infame carga? Aarão, Aarão já vendestes bastante negros para teres teu nome inscrito no livro dos algozes? E há ainda quem te apoia neste ato desumano?


'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço  
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...
Donde vem? onde vai?  Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.
Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!
Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!
Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!
Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................
Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!
Albatroz!  Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz!  Albatroz! dá-me estas asas. 
II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!
O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!
Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ... 
III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror! 
IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
          Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
          E ri-se Satanás!...  
V

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são?   Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...
São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .
São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.
Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...
Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.
Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...
Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ... 
VI

Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio.  Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
(Castro Alves)

sábado, 23 de dezembro de 2017

FARSÁLIA



















                                                   Que estás pensando, cara pálida? Que irás dominar eternamente? Acaso Roma não caiu?
                                          "Então, Roma, quando hajas sotoposto
                                           Inteira a redondeza a teu império, 
                                           Já que nefanda guerra anelas tanto,
                                           Volta armas contra ti, e hás inimigos."
                         (Farsalia, Marco Aneu Lucano, trad., Filinto Elisio).
                                    "Para onde mais marchareis?  Onde Levareis meu estandarte, guerreiros? Se vindes legalmente, como cidadãos, só até podeis vir"

  

quinta-feira, 22 de junho de 2017

ABAPIXUNA

                                                 












                                                      
                                                         Eu não sou daqui, marinheiro só, eu não tenho amor, marinheiro só, eu sou lá d´Angola, marinheiro só,  ou das terras d´Oió, marinheiro só. 
                                    Pegados na selva por inimigos,  vendidos a preço de banana a mercadores d´almas, cristãos ou não,  escondidos sob cristandades,  um povo, antes livre e altaneiro, se vê acorrentado e atiçado em porões de navios, homens, mulheres e crianças amontoados, sofrem fome, sede, o balanço do mar e o banzo. Subirá alguns deles, um dia,  à proa? Ou serão sempre bufões, Scaramuccias pronto a fazer gargalhar  a turba? Um palhaço de Mar Bonito assume a Corte. O imperador quer se distrair, suas concubinas também. 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

NÃO RENUNCIAREI

                           















                                                     

                             







                                                   

                              A arte de viver consiste de avanços e retrocessos. Quem não reconhece seu  erro e  não dá um passo atrás, cairá na primeiro que fizer. Para venceres qualquer inimigo muitas circunstâncias se fazem necessárias, mas a primeira é saber quando combater e quando bater em retirada, dizia o grande Sun Tzu. Quando o homem está acuado, há de ter sabedoria para ganhar a simpatia de alguns acuadores, dividindo-os até encontrar a brecha para escapar da toca. Um herói pode no dia seguinte acordar covarde, traidor. Quem não olha para trás,  estará condenado ao ostracismo, a elite te-lo-á, sempre,  como forasteiro. Foi assim com o trácio Justiniano, pobre nascido na longínqua Sérvia, tornado imperador, esposa Teodora, vinte anos menos em idade, artista de circo, desdenhando a nobreza e o senhores da terra.

                                  Quem domina não suporta a ousadia de seus servos, quem puser a cabeça fora, defenestrado será. O ostracismo é o destino.