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sábado, 2 de junho de 2018













                                         
                                                     E os filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante o Senhor, o que não lhes ordenara.

                          Então saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu; e morreram perante o Senhor. (Levitico, 10,1,2).
                          Eu me chamo Mahommah Gardo Baquaqua nascido em Djougou no Benin. Poderias  teres vindo também de lá? Não, não tens a mesa têmpera. És demasiado conformista, eu diria, és mesmo do tipo puxa-saco. Por isto chegaste onde chegaste, pisando todos os de baixo e lambendo a botas dos de cima.





domingo, 25 de fevereiro de 2018

NAVIO NEGREIRO

     










                                                         




                  'Stamos em pleno mar, singra-o, de negros, carregado, o veleiro brigue d´Aarão Lopes, cristão novo português, agiota e mercador de gente, trocada por miçangas, em terras africanas. Donde vens?  Que destinos tomarás? Onde aportarás com tua infame carga? Aarão, Aarão já vendestes bastante negros para teres teu nome inscrito no livro dos algozes? E há ainda quem te apoia neste ato desumano?


'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço  
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...
Donde vem? onde vai?  Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.
Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!
Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!
Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!
Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................
Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!
Albatroz!  Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz!  Albatroz! dá-me estas asas. 
II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!
O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!
Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ... 
III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror! 
IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
          Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
          E ri-se Satanás!...  
V

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são?   Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...
São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .
São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.
Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...
Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.
Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...
Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ... 
VI

Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio.  Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
(Castro Alves)

sábado, 23 de dezembro de 2017



















                                                   Que estás pensando, cara pálida? Que irás dominar eternamente? Acaso Roma não caiu?
                                          "Então, Roma, quando hajas sotoposto
                                           Inteira a redondeza a teu império, 
                                           Já que nefanda guerra anelas tanto,
                                           Volta armas contra ti, e hás inimigos."
                         (Farsalia, Marco Aneu Lucano, trad., Filinto Elisio).

  

quinta-feira, 22 de junho de 2017

ABAPIXUNA

                                                 












                                                      
                                                         Eu não sou daqui, marinheiro só, eu não tenho amor, marinheiro só, eu sou lá d´Angola, marinheiro só,  ou das terras d´Oió, marinheiro só. 
                                    Pegados na selva por inimigos,  vendidos a preço de banana a mercadores d´almas, cristãos ou não,  escondidos sob cristandades,  um povo, antes livre e altaneiro, se vê acorrentado e atiçado em porões de navios, homens, mulheres e crianças amontoados, sofrem fome, sede, o balanço do mar e o banzo. Subirá alguns deles, um dia,  à proa? Ou serão sempre bufões, Scaramuccias pronto a fazer gargalhar  a turba? Um palhaço de Mar Bonito assume a Corte. O imperador quer se distrair, suas concubinas também. 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

NÃO RENUNCIAREI

                           















                                                     

                             







                                                   

                              A arte de viver consiste de avanços e retrocessos. Quem não reconhece seu  erro e  não dá um passo atrás, cairá na primeiro que fizer. Para venceres qualquer inimigo muitas circunstâncias se fazem necessárias, mas a primeira é saber quando combater e quando bater em retirada, dizia o grande Sun Tzu. Quando o homem está acuado, há de ter sabedoria para ganhar a simpatia de alguns acuadores, dividindo-os até encontrar a brecha para escapar da toca. Um herói pode no dia seguinte acordar covarde, traidor. Quem não olha para trás,  estará condenado ao ostracismo, a elite te-lo-á, sempre,  como forasteiro. Foi assim com o trácio Justiniano, pobre nascido na longínqua Sérvia, tornado imperador, esposa Teodora, vinte anos menos em idade, artista de circo, desdenhando a nobreza e o senhores da terra.

                                  Quem domina não suporta a ousadia de seus servos, quem puser a cabeça fora, defenestrado será. O ostracismo é o destino. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A SECA









         



Quem não conhece o Nordeste não sabe o que é seca. Ouvir falar não está nem perto do que realmente seja conhecer sua realidade. É a mesma a coisa que ouvir falar da neve, nada se compara a vê-la caindo sobre nossa cabeça, encharcar nossos pés, esfriar nariz e orelhas.

A miséria da seca se prolonga por anos, destrói esperanças, enxota cidadãos, cria uma raça de párias que vive à mercê dos poderes públicos, como cria uma indústria da seca na qual uns poucos se aproveitam para ganhar à custa da miséria d´outros.

Seca é Morte e Vida Severina, é a baleia de Fabiano e Sinhá Vitória, é o papagaio feito comida, é o caminhão d´água esmolado do político, é gado servindo de pasto a urubus.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

NOITE DE INSÔNIA













Numa noite negra, um homem se debatia em seus pensamentos, a noite virou dia, o homem adormeceu sem ter encontrado a solução para o problema que se lhe impusera.

Sim, ele próprio inventou o problema: achar e colocar um verdadeiro representante do povo brasileiro no topo de um dos poderes da república.

Sabia das dificuldades que iria encontrar, ao contrário do que muitos pensam, a nomeação de alguém para um tão alto cargo na república não era obra de um só homem,  mas de inúmeras forças internas e até externas que exercem pressões para levar ao cargo pessoa de sua confiança. Nesta briga de foice no escuro, geralmente quem leva a melhor são as forças produtoras, os homens que detém, na realidade, o verdadeiro poder. Muitos pensam que um presidente ou primeiro ministro de um país exerce o poder, mas não é verdade, quem exerce o poder são os grupos que detém os meios de produção. De concreto, um presidente ou primeiro ministro não está no poder, está no governo, que são conceitos totalmente diferentes. O governo é exercido por alguém em nome dos que detém o poder, somente em alguns casos, as forças produtoras colocam no governo um homem de seu meio, um banqueiro, um industrial, um alto comerciante, mas em geral os políticos são pessoas da classe média a serviço da classe dominante.

Em 1954, ano da morte de Getúlio Vargas, nascia em Minas Gerais na pequena Paracatu um menino, filho de um pedreiro e de uma doméstica. Era o primeiro entre oito que fabricara o velho, que parecia saber trabalhar bem à noite, embora com mãos calejadas do bater  do martelo, do manejar a colher, do mexer em pedras e tijolos.

A cidade tem seu nome herdado do Rio Paracatu que em Tupi significa rio bom ou rio bonito, pará é rio,  catu  é bom, bonito. Nela cresceu um de nossos  personagens deste romance meio picaresco, como quase tudo em terras tupiniquins. 

Pouco tempo tinha o menino para colher a guabiroba, fruta abundante na região, pois a labuta diária na ajuda ao pai não lhe permitia horas de recreio, como aos demais meninos de sua idade. E sua luta se intensificou quando viu seu pai se separar de sua mãe, tornando-o praticamente o chefe de família, como era comum naquelas eras. O primogênito carregava o bastão na falta do pai e era até o senhor da educação dos irmãos mais novos.

No mesmo mês em que nascera em Paracatu, outro menino igualmente ou talvez mais pobre, nasce em Pernambuco, na cidade de Caetés, de pais lavradores, também sem televisão e certamente sem tostão,  o sétimo de uma prole de oito filhos. 

Como faz filho o pobre! Não era irresponsabilidade. Em outras épocas a prole numerosa podia ser a fortuna dos pais, pois todos trabalhavam e  terminavam por ajudar no orçamento doméstico. Hoje que se proibiu a criança de trabalhar é que foram aparecendo os pequenos infratores, visto que a solicitação do mundo moderno, o apelo ao consumismo enchem os olhos dos miúdos, como dizem os portugueses, e por falta de dinheiro, já que não trabalham e os país não no tem, partem para a rua e o final é o que se vê na atualidade. Os infratores juvenis. 


Ficava-se sem infância, os sonhos da juventude  perdidos, o que não deixava de ser uma violência, mas se perdia a inocência, ganhava-se em responsabilidade. Hoje a criança não brinca mais de negro fugido, roda bandeira,  roda ciranda. É pregado na televisão vendo toda espécie de violência e apelos ao consumismo, jogando-se assim o adolescente nos braços de traficantes e toda espécie de criminosos na esperança de comprar com o ganho,  além da comida para casa, a roupa de grife, o celular de ultima geração, criando-se uma verdadeira falange de jovens infratores que em sua maioria não chega aos vinte anos, pois são logo mortos pela polícia, quando não se matam a si próprios, na luta por pontos de drogas ou qualquer outra atividade não regular.